Devaneios

Poesia do último dos poetas ultra-românticos.

Nome:
Local: Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil

Sábado, Junho 06, 2009

Boa Noite


Boa noite, Maria ! Eu vou-me embora,
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria ! É tarde . . . é tarde . . .
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa noite ! . . . E tu dizes: - Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos . . .
Mas não mo digas descobrindo o peito,
Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu ! Ouve . . . a calhandra
Já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti ? . . . pois foi mentira . . .
. . . Quem cantou foi teu hálito, divina !

Se a estrela d’alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d’alvorada:
“É noite ainda em teu cabelo preto . . .”

É noite ainda ! Brilha na cambraia
Desmanchado o roupão, a espádua nua –
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua . . .

É noite, pois ! Durmamos, Julieta !
Recende a alcova ao trescalar das flores.
Fechemos sobre nós estas cortinas . . .
São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos . . .
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor ! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros bebo atento !

Ai ! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora . . .
Marion ! . . . Marion ! . . . É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora ?! . . .
Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo . . .
E deixa-me dormir balbuciando:
Boa noite ! – formosa Consuelo ! . . .


São Paulo, 27 de agosto de 1868

Autor: Castro Alves

Inconstante


Não posso mais viver
Nessa eterna divisão
Transitando na constante tensão
É preferível voltar a sofrer.

Mas que desregrada pulsão!
Por que me faz morrer
E do prato nunca esquecer?
Que saudades da solidão...

Soluços...lágrimas contidas a beber
Afogando o maldito coração
Que ainda insiste em comandar.

Mas chego a uma triste conclusão:
- Mais vale a opção de escolher
Do que se orgulhar de jamais amar.

A Cidade e o Tempo


Nos caminhos encontro em cada esquina um momento...
A cidade fala silenciosamente pelas suas ruas barulhentas,
Pelos seus prédios impassíveis, pelo tempo de seus anos...
Nunca havia reparado nos traçados formosos e famosos
Porém sempre refleti sobre momentos da evolução da cidade.
Existe uma área em que podemos senti-la mais intensamente,
Com mais angústia e esperança – a área central.
É o locus da mudança, dos embates, do progresso...
Do regresso, do retorno, das experiências e dos fracassos.
Lá, eu sempre tive ilusões e confusões temporais...
O contraste com o outrora bucolismo suburbano,
Leva-me a expansão, ao progresso e à civilização.
Tenho que confessar: - Não sei mais em que tempo estou!
Num mesmo quarteirão, entrei no século XVI,
Desci no século XIX, caminhei pelo início do século XX,
E deparei-me no século XXI... enxergando séculos posteriores...
Não compreendo essa saudade, essa melancolia de uma cidade que não conheci;
E talvez nem conheça ainda seu cotidiano, seus habitantes, sua vida...
No entanto, uma certeza eu tenho: - Como sinto sua falta!
Por que ainda respiro seus ares? Por que ainda me sinto habitante dela?
Não sei explicar... apenas sinto saudades e melancolia...
E a cidade não para!

Domingo, Agosto 27, 2006

27 de Dezembro


“O Brasil é uma

república federativa

cheia de árvores

e gente dizendo adeus”

Oswald de Andrade


Era um mais um cinza domingo febril;

Meu coração estava apertado de saudade;

Lembrava-me de Oswald de Andrade

Afirmando existir uma pátria cheia de árvores,

E pessoas dizendo adeus. . . Era o Brasil. . .


O domingo de chuva ácida era tão vil. . .

Não me deixava encontrar o meu amor;

A saudade fazia-me sentir muita dor,

Era um domingo triste de uma imensa pátria,

Esta, que está tão mal tratada é o Brasil. . .


Na vitrola, escutava um antigo disco de vinil,

Era domingo, e eu só pensava em minha amada.

Ah! Como eu a amo! Como ela é desejada!

Então lembrei que na pátria também havia felicidade,

Mas que pátria é essa que sofre e ri? É o Brasil.


E eu perguntava – O telefone, quem viu?

Corria para atendê-lo. . . Eu estava agoniado

Pois necessitava dizer o amor de um homem amado.

Enfim consegui minha paz. Isto tudo ocorreu num domingo

Outrora triste, tornou-se alegre. E assim, foi mais um domingo no Brasil. . .

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

Amanhecer


O chão reflete o brilho do sol

O sol penetra pela janela

Como o amante que penetra em sua donzela

Ilumina a sala escura e nebulosa

Atingindo aos olhos de quem nela dorme. . .

Depois de uma noite fria,

O sol esquenta o corpo morto

Que teve seu último prazer.

A donzela ainda dorme em seu leito

E um corpo descansa no chão, na lousa;

Aquela noite, talvez tenha sido fatal

Mas, quem resistiria àquela donzela sensual?

E depois do prazer, veio o punhal. . .

Cravado em seu coração. . . Em seu peito!

O sangue escorre pelo chão da alcova

E a donzela, cansada, deita-se para dormir

Quando então, o sol começou a surgir.

Domingo, Julho 02, 2006

Ruas


Esfumaçado ar no horizonte
Gotas de suor caem pela fronte
Caminhando pelos largos e ruas
Estreitas, feias, belas e sujas.

Vazias de gente...não me encontro
Não encontro você... tão ocas
Nomes de pessoas, Igrejas de santo
Estou em diversas voltas.

Desencontrado encontrei-a perdida
Não sei por onde, mas estava ferido
Quase me reconheci em você,
E sabia que poderia renascer.

Nessas ruas imponentes, velhas e largas
Cansando, esgotado, quase inconsciente
Entre postes, menores e carros
Voltei a enxergar-me novamente.

Quinta-feira, Junho 22, 2006

Nada Sou


Um imenso desespero invade a alma

Não encontro mais saídas claras

Estou tão confuso....

Tonto e tolo... sobrevivendo de ilusões

Mas não nego a atormentada existência

Mesmo que ela insista em negar-me.

Com lágrimas no rosto, angustio-me

Como encontrar uma tangente?

Prefiro a inércia.

Imóvel não encontro atritos

Nem arrisco o quê me resta.

Sinto-me incapaz de mover-me.

Imaginava um futuro diferente para este presente

Uma outra realidade mais vitoriosa

Ou talvez um fracasso menos forte...

No futuro do pretérito

Será que conseguiria ser?

Ou novamente nada seria?

Não tenho mais perspectiva.

Não me sinto mais pertencente ao ser

Sinto-me excluído de algo que sempre fui

Não me encontro mais em mim...

Só sei que nada mais sou

Mas um dia fui.

Sexta-feira, Dezembro 30, 2005

Súplica


Vultos cercam meu leito fúnebre
Não os consigo diferenciar...
Até quando suportarei o lúgubre
Coração que não deseja mais amar?

Não quero mais esta vida enfadonha!
Chega de volúpia! Chegar de seios fartos!
Quero que a morte, outrora medonha,
Chegue célere, em passos largos.

Estou aos pouco entristecendo o espírito
Estou consumindo o ópio letal.
Por favor! Um copo cheio de absinto!
E embriague-me com seu líquido fatal.

Fujam! Fujam, vultos prazerosos!
Não desejo mais vê-las em meu quarto.
Não tenho mais gestos airosos.
Só sei que da vida estou farto!

Oh! Deus por que ainda devo viver?!
A desgraça é pouca e a alma padece
Basta! É preciso parar de sofrer!
A alma liberta-se e o corpo falece.

Sexta-feira, Agosto 05, 2005

Silêncio Ensurdecedor


Uma calma perturbadora
Olhar fixo no vazio
Coração estraçalhado...
Respiração ofegante
Olhos marejados
Lágrimas e lágrimas...
Uma dor contida
Músculos contraídos
Pressão no peito...
Sangue gelado
Fim crônico.
Silêncio e silêncio...